19.9.08

As três espécies de amizade em Aristóteles

Nos livros VIII e IX de sua obra “Ética a Nicômaco”, Aristóteles discorre, em sua característica sistematicidade, sobre a natureza da amizade. Sendo este um tratado de ética, a discussão sobre a amizade se faz necessária, pois ela é, segundo o estagirita, ou uma virtude ou implica virtude, e é, além disso, extremamente necessária à vida. “Com efeito”, afirma o filósofo, “ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que dispusesse de todos os outros bens, e até mesmo pensamos que os ricos, os que ocupam altos cargos, e os que detêm o poder são os que mais precisam de amigos; de fato, de que serviria tanta prosperidade sem a oportunidade de fazer o bem, se este se manifesta sobretudo e em sua mais louvável forma em relação aos amigos?”

As amizades podem ser classificadas, conforme o discípulo de Platão, em três tipos distintos. Essas espécies de amizade fazem referência às qualidades que as fundamentam. Elas são: 1) a amizade segundo o prazer, 2) a amizade segundo a utilidade e 3) a amizade segundo a virtude, ou a amizade perfeita.

Aqueles que fundamentam sua amizade sobre o prazer o fazem por causa daquilo que é agradável em um para o outro. Pessoas espirituosas, por exemplo, têm muitas amizades não por causa do seu caráter, mas sim devido ao prazer que podem proporcionar umas às outras. 

A amizade segundo a utilidade é estabelecida pelo bem que uma pessoa pode receber da outra. Mais uma vez, as pessoas envolvidas neste tipo de relação não se amam por causa do seu caráter, mas sim devido a uma utilidade recíproca.

Já a amizade segundo a virtude só pode se estabelecer entre os homens que são “bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos.”. Como estes homens são raros, amizades assim também são raras.

Tanto a amizade segundo o prazer quanto a amizade segundo a utilidade são geralmente efêmeras, passageiras, se desfazendo facilmente. Isso ocorre quase sempre se uma das partes não permanece como era no início da amizade, isso é, se deixa de ser útil ou agradável. Por essa razão, “quando desaparece o motivo da amizade, esta se desfaz, pois existia apenas como um meio para se chegar a um fim.”. 

Nos deparamos com este tipo de amizade em quase todos os períodos de nossa vida. Ao nos lembrarmos das relações que mantínhamos na escola, por exemplo, podemos identificar facilmente quantas e quais não foram as amizades que estabelecemos segundo o prazer. As chamadas pessoas espirituosas, isso é, aquelas pessoas chistosas, cheias de vivacidade e de graça, mantêm quase sempre um amplo círculo de amizade. Mas isso não se deve ao que são em si mesmas, e nem por causa do seu caráter, mas apenas por causa do prazer que podem proporcionar aos outros.

As amizades segundo a utilidade são também de natureza semelhante. Podemos identificá-la, por exemplo, nas relações de trabalho entre os funcionários de um escritório. Ou então quando temos uma equipe ou um grupo que luta por um objetivo ou por um bem comum. Essas pessoas, neste caso, não se amam e não desejam a companhia umas das outras por si mesmas, mas mantêm uma relação de amizade porque isso resultará em um bem para si próprias.

Mas a amizade segundo a virtude, ou a amizade perfeita, como a chama Aristóteles, é perfeita “tanto no que se refere à duração quanto a todos os outros aspectos, e nela cada um recebe do outro, em todos os sentidos, o mesmo que dá, ou algo de semelhante.”. 

Neste tipo de amizade, as pessoas querem o bem uma da outra. Esses homens que são assim amigos buscam verdadeiramente o bem do seu semelhante, e isso pelo simples fato de serem bons. Eles “serão amigos por si mesmos, isto é, por causa de sua bondade.”. 

Os homens maus têm amizades apenas segundo o prazer ou a utilidade, nunca podendo ter uma relação virtuosa, ou uma amizade perfeita. No entanto, os homens bons, por sua vez, podem estabelecer relações segundo o prazer ou a utilidade, assim como os maus. Mas apenas os bons podem estabelecer uma amizade segundo a virtude. Neste sentido, fica clara a correspondência entre ética e amizade.

7 comentários:

  1. Aristóteles foi filósofo que mais se preocupou com a ética, não é mesmo?

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  2. Morgana1:31 PM

    eu tenho amizades segundo a virtude, ehhhhhh! estou entre os 'bons' rsssssssssss

    cruzes, esse povo tinha tempo pra pensar em tudo mesmo..nunca que eu ia pensar em classificação de amizade. eu acho...=/ mas não é que é isso mesmo!

    mas voltando a classificação biológica, mesmo ele tendo feito uma classificação não muito aceita hoje (nem vou colocar 'errada' pra não te ofender kkk), o cara foi um dos primeiros que fez isso, então já é foda \o/

    acho q vc mencionou na sua casa sobre um cara que tinha feito isso antes... qual o nome do sujeito?

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  3. Seus artigos são extraordinários. Finalmente encontro um blog filosófico em português que vale a pena!

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  4. Uma perfeição esse pensamento de Aristoteles posso confirmar que tenho duas amizades perfeitas !

    gostei bastante e estou te seguindo Ok!

    me siga no meu Blog tambem!

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  5. Creio que não há amizade perfeita descrita por Aristóteles.
    Observa-se uma imensa fronteira entre o que é amizade e coleguismos.
    As pessoas nutrem uma amizade no intuito de não estarem sozinhos, podem ser acolhedores, mas impõe um certo limite quando julga a natureza propriamente dita.
    Cabe aí a diferença: Será que voce , como amigo, permitirá a liberdade do outro a ponto de saber que tem dias que ele não está a fim de conversar, te dar atenção, ou não sair contigo e preferir sair com outros?
    O que Aristóteles descreve é muito complexo e o que vejo na realidade são pessoas que se afetam por tudo, se magoam, não estão preparadas para a autopercepção.

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  6. Tirando a parte do homem bom ou homem mal, é realmente algo que levei em conta

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  7. Perfeita a colocação, afinal é um pensamento que pode ser plenamente encaixado no sistema atual.

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